• Sabrina

Com viajar sozinha me preparou para enfrentar o período da epidemia sozinha


Assim como muitas pessoas, eu estou passando esse período de distanciamento social sozinha, em um país distante do meu. Muita gente tem me perguntado como consigo sobreriver por um mês sem um abraço. A questão é que, até me perguntarem isso, eu nem tinha me dado conta de que já estou há muitos meses sem receber um. E tá tudo bem.


Depois de pensar a esse respeito entendi que a resposta é: viajar sozinha nos últimos 2 ou 3 anos me preparou pra isso. Muitos pensam que viajar é uma fuga, mas quem viaja sabe que, na verdade, essa experiência é sobre encontrar. É um encontro consigo mesmo.


Se você estiver atravessando esse período em convívio com outras pessoas, esse texto também é pra você. Afinal, o crescimento é pessoal. E leia também o primeiro post dessa série que fala do que a estrada me ensinou sobre convivência em confinamento. A experiência inédita de uma pandemia é tanto um desafio como uma aventura. Vamos embarcar nessa jornada como se fosse uma viagem a um lugar remoto e desconhecido, e vamos explorá-lo?



Paredes não podem prender um espírito livre


Normalmente, quando um viajante não está efetivamente viajando, ele está planejando uma viagem. É que sonhar, planejar e recordar também são formas de viajar. Um peregrino de alma sabe que quando o espírito é livre, nada o pode prender. Nem mesmo portas e paredes.


Vamos pensar em um dos viajantes mais simbólico de todos os tempos: O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry (1943). Insatisfeito com sua vida monótona, ele saiu para explorar todo o Universo. Foi onde ele aprendeu a valorizar aquilo que era seu. E a sua rosa, onde está?


Tudo bem se você não concorda que ler livros é uma forma de viajar com a alma. Mas eu sim, e com o Pequeno Príncipe eu entendi que...


... é importante experimentar novas rotas em uma nova realidade:

"Quando a gente anda sempre em frente, não pode ir muito longe."


... nem tudo é perfeito, e isso é perfeição:

"É preciso que eu suporte duas ou três larvas se quiser conhecer as borboletas."


... a solidão não é ausência de pessoas:

"As pessoas são solitárias por que constroem muros ao invés de pontes."


... a criança que habita em mim saberia o que fazer:

"Todas as pessoas grandes foram um dia crianças - mas poucas se lembram disso."


Há quanto tempo a loucura cotidiana te privava da oportunidade de explorar esse mundinho da sua porta pra dentro? E de se tornar amigo ou amiga dessa pessoa com quem você convive 24h (você mesmo, tá)?


Por hora, o meu universo é o pequeno studio onde eu moro. Desapegar ajuda a limpar o ar, ilumunar o ambiente e transmitir leveza. Ter uma plantinha ajuda a não perder a percepção de vida, nem que seja aquela cebola que brota na geladeria (meu caso). Ter uma prática espiritual pode não ser o desejo de todos, mas se for o seu, reconecte-se com o superior. Olha para os seus lados e diga: Se você fosse o Pequeno Príncipe, o que você aprenderia sobre o valor desse seu planetinha?



Se informar, sim. Saber tudo? Não


Se você, como eu, já foi para algum lugar onde nenhum conhecido seu já visitou antes, o que você fez para buscar as informações necessárias para se organizar? Provavelmente em blogs de viagens. Aí eu te pergunto: Os bloggers te falaram absolutamente tudo que você viveria nessa experiência? Ou houve outras milhares de coisas que você só descobriu depois que viveu a experiência por si?


Pesquisar é importante, todo viajante DEVE fazer. Mas chega um ponto que não importa quanta informação você receba, ela não acrescenta mais. Não ajuda mais. Só confunde e pesa. É assim com toda nova jornada. Inclusive, já acreditei em dezenas de bloggers que falaram coisas erradas, que não entenderam direito a burocracia do país. Coisas que eu só descobri quando tive minha própria vivência.


A informação segura acalma, a informação em excesso aflige. Uma situação inédita já traz dados suficientes para o nosso cérebro processar. Se aumentarmos essa carga com uma overdose de notícias sobre coisas que não podemos fazer nada a respeito, ele quebra, afunda. Vamos selecionar e nos alimentar apenas daquilo que instrui, tranquiliza, orienta e pronto. Deixe espaço para a sua mente se organizar e se adaptar a essa nova realidade.


Conexões verdadeiras suportam a distância


Algumas vezes, se viajo sozinha, é pra me calar e para me ouvir. Como disse antes, é pra me encontrar. Por vezes diminuo o contato diário com meus queridos, mas nem sempre. Eu os levo comigo por onde vou, e eles de fato vem e participam do que eu faço. Estou falando das conveniências tecnológicas mesmo.


Especialistas sugerem que uma vida social excessiva pode ser uma fuga de encarar a si mesmo. A questão aqui é a seguinte: é perfeitamente compreensível que a gente não se sinta confortável em encarar e conviver com uma pessoa desconhecida ou de quem não gostamos. Mas é muito mais fácil quando há intimidade e carinho por ela. Se estiver difícil tolerar a própria presença, vamos quebrar o gelo?


Eu vi alguém sugerir raspar suas sobrancelhas. Pelo menos vai ser hilário se encarar no espelho.


Se a causa da dificultade em tolerar o afastamento físico das pessoas for o desafio de aguentar a sua própria presença, pura e sem máscaras, eu proponho uma solução simples: se torne amigo dessa pessoa (você mesmo). Descubra quais são as características nessa pessoa que você mais admira, que gostos vocês têm em comum (todos, hahaha), que medos compartilham... e de onde eles vieram. Faça as pazes consigo. Não importa se você está acostumado com pessoas que não gostam do seu jeito ou não tem paciência com quem você é. A única pessoa que tem que te admirar está aí, habitando o seu corpo.


No mais, vamos manter apenas aquelas pessoas que nos acrescentam, somam e aliviam. Graças às tecnologias, as distâncias são encurtadas. Mas cabe apenas a nós percorrer a distância que nos separa de nós mesmo. Esse caminho pode ser muito agradável, dependendo do nosso desejo em explorá-lo.


Antes do futuro há o agora


Todo ser de alma viajante sente, de alguma forma, a urgência do hoje. E isso é algo que os seres medianos ignoram: O futuro é emergente, o hoje é urgente.


O cérebro humano é a máquina mais fantástica e ao mesmo tempo a mais perigosa que eu conheço. A maioria das pessoas é ensinada a viver olhando só para o futuro, esperando que dias melhores virão. Faz sentido, mas só em parte. E como esse é o treinamento padrão que recebemos, temos a tendência de reproduzir sempre o mesmo comportamento em todas as situações.


Mas agora é o seguinte: o futuro é próximo mas é incerto demais. Você vai passar uma quarentena inteira pensando naquilo que ninguém sabe o que vai ser? Vai viver sabe-se lá quanto tempo imaginando todos os possíveis cenários que nem as projeções econômicas mais robustas conseguem prever? E os problemas do hoje, ficam como? E a vida? E o presente?

Sabe porque tanta gente (como eu) tem tido crises de ansiedade nesse momento? Em vez de viver o dia-a-dia e nos preparar para o agora, ficamos queimando neurônios projetando todas as possíveis tragédias do amanhã. É ou não é, ansiosos? Seja São Francisco, aja para aquilo que você pode fazer a diferença e aceite aquilo que não pode mudar (repetindo isso igual um mantra aqui).


Se você não se concetrar no agora, essa máquina dentro da sua cabeça não consegue ficar sem ocupação, sem problemas pra resolver. Ela vai ficar projetando possibilidades futuras por falta do que fazer. Peço a licença pelo trocadilho infame, mas sem ocupação, a cabeça cria pré-ocupação. Então, se ocupe com o agora! Tenha um projeto para investir suas energias agora, alimente a sua cabeça com problemas reais! De preferência um projeto que possa trazer bons frutos para você, agora e nesse tal de futuro aí. Dessa forma você já resolve dois problemas: se ocupa no presente e se garante para um futuro melhor na medida do que será possível.



Pra finalizar, recomendo aqui a leitura de um artigo que escrevi há um tempo sobre a ansiedade a viagem, e que complementa este texto que você acabou de ler, demonstrando que essa discussão não é recente.


Deixo aqui também a playlist no Spotify que foi a trilha sonora enquanto escrevi esse post, e pode ser o background do seu reencontro consigo mesmo: Avi Kaplan é ex-vocalista do Pentantonix e abandonou o grupo para se isolar na floresta e se aventurar na própria busca de si mesmo. Parece sombrio, mas não é. O que ele canta é paz, liberdade e esperança, e o resultado dessa busca são as músicas dessa playlist.



#Fiqueemcasa

#StayHome

0 visualização
  • Preto Ícone Facebook
  • Preto Ícone Twitter
  • Preto Ícone Pinterest
  • Preto Ícone LinkedIn
  • Preto Ícone Instagram

©2020 por pegada na terra