• Sabrina

As fases da quarentena e como superar o isolamento mantendo a motivação

Atualizado: Mar 26

Um breve relato de quem está há 25 dias em quarentena na Itália, e uma análise sobre home office, confinamento, motivação e saúde mental. Esse texto vai falar sobre o que vai acontecer com a quarentena que está começando no Brasil, como ela vai mexer com a sua saúde e o que é possível fazer para superar esse desafio (especialmente com crianças).



Antes de você continuar a leitura, eu queria dizer que o objetivo desse texto não é te entristecer. Se você tiver alguma condição que possa ser engatilhada por um relato triste, pule para a segunda parte do texto. Tentei narrar da forma menos dramática possível, mas sem perder a seriedade do momento.

Eu vejo a quarentena começar no Brasil de forma muito semelhante à maneira como começou aqui na Itália. Hoje estamos no dia #25 da quarentena, e os sentimentos estão bem diferentes de como eram no início. Como todos os acontecimentos inéditos, nós não sabemos o que esperar, mas a experiência de outros que já passaram pela mesma situação pode nos ajudar muito a nos preparar para o que virá.


Por isso, eu relato a evolução do impacto da quarentena na nossa mente, e como tudo está acontecendo de forma parecida no Brasil, vou descrever duas coisas importantes sobre esse processo:


  1. Os efeitos da quarentena na nossa cabeça evolui em fases;

  2. O que deve ser feito para não sofrer danos emocionais nesse período.



A evolução da quarentena (estudo de caso da Itália)


Fase 1: "Estamos de férias"


No dia 24 de fevereiro, pouco tempo após o primeiro caso de infecção por Sars-CoV-2 (coronavírus) no norte da Itália, o número de casos subia, mas ainda havia uma certa ilusão de controle. Nesse dia as aulas em escolas e universidades foram suspensas.


O clima foi de férias. Pais e avós que ficaram em casa com seus filhos levavam as crianças pra andar de bicicleta no parque, idosos não alteraram sua caminhada, ciclistas e corredores não interromperam seus treinos.


Se por um lado o "pânico no supermercado" esvaziou as prateileiras em algumas cidades, por outro, o comportamento nas ruas não transparecia a mesma preocupação. Na verdade, a única coisa que acabou na maioria dos supermercados foi o macarrão e o molho de tomate. Afinal, aqui é Itália.


Fase 2: "Que tédio"


Com os supermercados cheios e as despensas abarrotadas, ficamos com a sensação de que todo aquele pânico foi desnecessário. Sim, limpar o mercado foi completamente inútil, mas isso deu a impressão de que se recolher em casa também não foi importante. O número de casos continuava aumentanto, mas não era nada comparado à China. Alguns museus reabriram com restrição de número de pessoas, e eu mesma fui visitar.


Mas com essa pequena atitude vimos a curva epidêmica explodir, os museus fecharam por período indeterminado e a monotonia tomou conta. Foi nessa fase que vimos viralizar nas redes sociais os vídeos das cantorias nas sacadas. Prédios e vizinhanças inteiras interagindo com canções, vinho e risada. Era uma monotonia chata, sim, mas uma simples movimentação como essa alegrava o nosso dia.



Mas isso também passou.


Fase 3: "Privamera Silenciosa"


Não se ouve mais música. Não há mais vozes de vizinhos conversando entre janelas distantes. Não há mais vídeos alegres de fachadas inteiras dançando A Macarena (aqui em Torino, onde estou).


Começou a doer.


Eu não posso nem imaginar como estão os pais idosos que não podem receber a visita de filhos.

Muito menos imaginar como se sentem aqueles que estão preocupados em como terão renda sem trabalhar.

Menos ainda, aqueles que perderam alguém, sem poder se despedir.


A ficha foi caindo nesse momento.


A tristeza da distância associada ao ócio começou a tomar conta, enquanto vemos pela TV comboios de veículos do exército levando corpos de uma cidade para outra buscando lugar em cemitérios que ainda não estejam em capacidade máxima (isso aconteceu ontem, 20/03 na cidade de Bergamo).


A primavera chegou e nem nos demos conta. A alegria do povo italiano se extinguiu.

O desespero começou a aumentar, pois o número de casos e óbitos ainda não parou de crescer, e agora nos damos conta de que isso vai durar por muito mais tempo.


É nessa fase que estamos agora.


Muito do que poderia ser feito para amenizar o que está por vir, deveria ter sido feito antes. Vamos aprender a lição (que já deveríamos ter aprendido depois dos exemplos da China e da Itália), e focar no que podemos fazer daqui pra frente. Então é disso que vamos falar agora:



O que fazer para superar a quarentena e manter a mente saudável


Eu tenho duas sugestões muito importantes que tem sido essenciais para manter a minha motivação e produtividade:


1. Não subestime nem abandone a rotina


Eu não tenho filhos e estou passando a quarentena sozinha. Eu não sei como seria ficar trancada num apartamento com crianças, mas essa será a realidade de muita gente. Independente de você ter filhos contigo ou não, a principal dica é: não deixe de planejar a sua rotina.


Se for trabalhar remotamente, tente manter horas fixas de trabalho.


Se tiver filhos, coloque eles para estudar no mesmo horário, mesmo que não seja o mesmo volume de horas que eles estudam na escola. TV, videogame, quebra-cabeça são recompensas para descansar, mas se eles não se cansarem, isso não vai salvar ninguém.


Mantenha rotinas de alguma atividade física, nem que seja uma dança ou alongamentos. Mesmo que seja algo lúdico conforme o que o espaço permitir.



Associada à importância do planejamento, eu já mando a segunda sugestão, e mais importante:


2. Tenha um projeto seu, para ser o seu novo trabalho


Mesmo pra quem vai continuar trabalhando remotamente, a situação agora é muito diferente. Não vai ser fácil manter a motivação, a menos que você tenha um projeto pessoal que te motive.


Lembra daquela ideia que você nunca pode levar pra frente por falta de tempo de se dedicar? Esta é a hora em que você PRECISA tirar ela do papel. Projetos nos dão objetivos, metas e resultados para alcançar. Se você não tiver isso, sinto dizer que vai ser muito mais difícil aguentar a pressão que virá. Um projeto não é apenas algo transitório como uma boa faxinha ou uns livros. Tem que ser mais profundo, mais extenso.


Faça um ou vários cursos online (planeje-se, faça a lista, coloque em ordem de prioridades)

Um blog, um site, um canal no youtube

Aquele livro de receitas autorais

Aquele plano de negócios pra abrir seu próprio empreendimento

Um TCC...


É válido destacar que isso pode ser feito para crianças também. Converse com eles, e veja se pode ajudá-los a pensar em algo que eles gostariam de fazer em médio prazo. Quando eu era pequena queria aprender a fazer estrelinha (aquela que a gente põe as mãos no chão e as pernas pro ar). Pode ser algo que exija menos espaço ou traga menos riscos para a TV da sala, mas em relação às crianças a coisa pode ser bem simples.


O confinamento é cruel, e talvez nos ensine a ser mais empáticos com as pessoas que estão em presídios (ou no BBB, pela primeira vez essas pessoas tem o meu respeito).



Mas...


E aqueles que não estão tão preocupados com a quarentena, mas sim com a própria renda?


Creio que uma parcela enorme da população brasileira está muito mais preocupada com a renda do que com a liberdade nesse momento. É o caso de autônomos, empreendedores e funcionários de pequenas empresas que podem quebrar. Enquanto muitos estão preocupados em como se manter firmes em quarentena, mais pessoas ainda estão preocupadas com o que vão comer no próximo mês.


Não tenho a solução, infelizmente, por maior que seja a dor que eu sinta. Se fizer alguma diferença, considere as possibilidades de:


  • Fazer um curso online gratuito que pode te ajudar a melhorar o currículo ou talvez adquirir uma nova habilidade que te dê uma luz sobre formas de gerar renda extra sem sair de casa. Sugiro assistir as palestras da Nathalia Arcuri sobre como ganhar dinheiro sem sair de casa e como economizar em tempos de calamidade pública.

  • Conte com as pessoas e com as redes sociais. Pode ser que haja algo que você possa fazer entre a vizinhança, sem expor você ou aos outros.


Se eu pensar em mais alguma coisa vou atualizar esse texto constantemente. Se você quiser sugerir algo, será maravilhoso!


Apoio psicológico gratuito online

Por fim, eu recomendo o site A Chave da Questão, onde profissionais oferecem aconselhamento terapêutico gratuito pela internet durante a epidemia e a quarentena. Não hesite em pedir ajuda.


Não será fácil. Para uns será mais difícil do que para outros. Mas se for possível nos unirmos e usar a criatividade para encontrar formas de ajudar, será menos doloroso. Estamos juntos, mesmo que separados.



Na mídia


Este texto saiu no Jornal A Gazeta


Veja também a entrevista para a TVC:



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