• Sabrina

De viajar juntos a se isolar juntos: o que a estrada me ensinou sobre convivência em confinamento

Atualizado: Mar 30

Você está confinado com alguém e já sente o peso da convivência em excesso? Em certos aspectos, viajar com amigos, parceiro(a) ou família pode ser uma experiência muito parecida com estar "preso" com outra(s) pessoa(s). Mesmo que não seja suficiente semelhante, vou trazer algumas lições que aprendi na estrada e que podem, de alguma forma, serem ajustadas a essa nova realidade.


Este é o primeiro post da série sobre isolamento social durante a epidemia do covid19. O segundo vai tratar sobre o isolamento solitário, e quando ele estiver pronto, você vai poder acessá-lo nesse link.



Quem aí já viajou sozinh@ e também viajou junto ou em grupo e já comparou esses dois tipos de aventura? Já avaliou o que mais de agradou e desagradou em cada um dessas formas de viajar?


Obviamente eu reconheço que viajar é uma situação infinitamente menos estressante do que a que estamos enfrentando agora, não ignoro o peso disso nem diminuindo o desafio que o distanciamento social nos impõe agora. Mas já que estamos vivendo algo totalmente inédito, vamos usar as experiências que temos para nos adaptar da melhor forma possível?


Negociar e ser flexível tem a ver com honestidade

Já teve situações em que você estava viajando e queria fazer uma coisa, mas a outra pessoa (ou o grupo) queria algo diferente? Sempre né.


Combinar tudo antes nem sempre funciona, já que algumas oportunidades e imprevistos simplesmente aparecem na hora. Ser honesto sobre seus interesses, votar ou ajustar os termos ajudam. Exemplo: "eu topo fazer isso se você topar aquilo". Ou: "não tô muito a fim, pode ser aquela outra opção?" Ou: "entre esta ou aquela opção, qual você escolheria" (para saber o que a pessoa quer muito e o que ela está disposta a negociar).


Não seja sempre a pessoa que cede, nem a pessoa que sempre impõe. E seja atento pois às vezes o outro cede tão facilmente que nem parece que você está impondo. Dê espaço e peça espaço. Seja sempre honesto com jeitinho se sentir que está cedendo demais.


Desgaste não é falta de amor ou amizade

Se já viajou com amigos e pessoas íntimas certamente já rolou um estresse. Acabou a amizade por isso? O relacionamento? Espero que não. No máximo ficam as lições: "Não viajo mais com esse chato" ou "da próxima a gente estabelece umas regras antes."


Nesses casos é bom pensar:


Primeiro: Não se julgue se achar que acabou o sentimento. Nem se culpe. É só cansaço.


Segundo: Não decida o futuro do relacionamento nessa situação difícil. Temos preocupações e ansiedades demais na nossa frente pra enxergar as coisas com clareza suficiente, não sabemos nem como será o próximo mês. Não tome decisões definitivas nessas horas.


Nunca ouvi ninguém falar que desistiu de uma viagem e antecipou o retorno por causa de desacordos. Tá, pode acontecer sim, se o negócio for super sério. Mas normalmente a gente leva a situação e tenta se ajustar até terminar a aventura, não é? Mesma coisa aqui.



A iniciativa muda tudo

Os filhos estão ansiosos, agitados? O marido tá nervoso? A esposa tá estressada? Isso provavelmente estará gerando estresses frequentes, que desgastam a todos. Se o comportamento do outro estiver te afetando, então a sua postura provavelmente também está influenciando os outros.


Se você quer mais serenidade no convívio, seja a primeira pessoa a oferecê-la. Não podemos exigir do outro aquilo que não podemos dar. Especialmente filhos, que olham para os adultos como exemplo (até inconscientemente, viu). Já viu alguém responder um grito com uma voz calma? Se sim, a primeira pessoa continuou gritando depois?


Quando eu era pequena, a minha irmã do meio e eu discutíamos diariamente. São só 2 anos de diferença de idade. Uma vez a minha professora da escola disse que ela também era assim com a irmã dela quando eram crianças. E ela deu um conselho: Se você briga muito com o seu irmão, faça uma aposta: Por uma semana, tentem fazer tudo para agradar o outro. De verdade. Faça tudo o que você sabe que agradaria a essa pessoa.


Gente, foi a semana mais em paz da minha vida até eu começar a morar sozinha depois de adulta. Eu tinha 10 anos e ela tinha 8. No fim dessa semana a gente brigou feio de novo e a aposta acabou, mas ela funcionou que foi uma beleza!


E se me permite uma sugestão: tome a iniciativa e experimente o poder de um abraço sincero.


Permitir-se experimentar e descobrir o desconhecido


Ao viajar você leva todas as rotinas diárias contigo? Você viaja sempre para os mesmos lugares na mesma época do ano para fazer as mesmas coisas? Pode até ser que você sempre vá pra casa da família no natal, mas isso é tradição. Não entra nessa categoria de viagem.


Ao viajar, geralmente deixamos os hábitos e necessidades diárias pra trás, e nos abrimos para nos adaptar provisoriamente a outra realidade. Cada nova situação exige uma quebra de paradigmas, e essa é a coisa mais espetacular da viagem.


Eu costumo compartilhar com as pessoas que viajam comigo que eu gosto de estabelecer uma ou duas coisas interessantes pra fazer num dia quando visitamos um lugar novo. O fato é que pelo caminho a gente descobre tanta coisa legal que a experiência sempre surpreende. Quando a gente já tem um roteiro engessado, pode ficar cansativo e talvez monótono. Motivo: o roteiro é uma escolha que a gente faz ANTES de conhecer a realidade do lugar. Sem o conhecimento apropriado, é de se esperar que ele seja perfeito?


Agora estamos vivendo uma situação completamente inédita e desconhecida para todas as pessoas do planeta. De muitas formas, isso é totalmente diferente de qualquer rotina que a gente tenha tido antes. Faz sentido tentar manter tudo igual e ficar frustrado se as coisas não se ajustarem tão facilmente agora? Faz sentido tentar as mesmas velhas soluções para os novos problemas?


Se você estiver vivendo o distanciamento social sozinho ou com outra(s) pessoa(s) agora, sugiro que se abra pra essa nova viagem despertando aquele mesmo instinto de buscas e novas descobertas que encaramos nas melhores aventuras. Tente experiências novas, encaixes novos, soluções diferentes...


Como fazer isso, se temos a tendência de sempre percorrer os mesmos caminhos já conhecidos? Faz o seguinte: Se fosse um amigo nessa mesma situação que você, o que aconselharia pra ele? Agora o contrário: O que o seu amigo aconselharia a você? Já percebeu que às vezes encontramos soluções para os problemas dos outros mais facilmente do que para os nossos? É que nós estamos muito mais agarrados aos nossos problemas do que os outros. Eu comecei a fazer isso em mim faz pouco tempo, e olha, essa técnica é bizarra!


Não custa relembrar: respeite a individualidade


Todo mundo precisa daquele tempinho calado, no cantinho, sem dar satisfação de cada passo. Acho esse tópico óbvio demais pra ficar repetindo. O importante é só enfatizar: sem individualidade, a convivência fica cada vez mais pesada e o relacionamento mais e mais desgastado. Esta, inclusive, pode ser a solução para momentos em que a gente sente que o amor acabou.


Até viajando juntos, a experiência é individual. O crescimento é pessoal.


Mas respeitar a individualidade não é isolar o outro. O isolamento na presença é cruel demais. Nunca retire o seu amor.


Cada um está travando uma luta interna, além dessa realidade sombria que todos enfrentamos coletivamente. Mas além de estarmos juntos no espaço físico, se estivermos juntos em coração, certamente seremos humanos melhores. Que esta experiência nos enriqueça, e que venham muitas outras viagens.


E se você ainda não viu o texto sobre as fases da "quarentena" e como superar o isolamento social, leia aqui.


Um abraço!

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