• Sabrina

Estilo de vida sustentável não é auto-sacrifício: é manter confortos e luxos de forma inteligente

Atualizado: Jul 3

A gente costuma achar que pra ter um estilo de vida sustentável tem que virar um monje urbano: abrir mão de tudo que a gente gosta, não poder comprar nada nem se permitir os prazeres da vida. Mas ser sustentável não é se vestir igual um saco de batata, só comer alface e andar de pé sujo. Na verdade é bem o contrário: é fazer investimentos a longo prazo nos confortos para que eles durem mais. É agir em interesse próprio mesmo, só que com inteligência.


E se, assim como eu, o seu maior luxo é viajar o planeta todo, você vai entender o poder da viagem sustentável para transformar o mundo (e poder fazer isso pelo resto da vida).


Vamos começar com um exemplo bobo pra você ver a relação entre ter luxos e a inteligência (= sustentabilidade).


Veja só:

O João quer muito ter um carrão que é super caro. Quando ele finalmente consegue realizar seu projeto, ele:


A) Vai cuidar do carro como se fosse um bebê, fazendo o possível para conservá-lo novinho pelo maior tempo possível, ou

B) Vai surrar o carro, pois a vida é muito curta pra deixar de curtir.


Uma postura sustentável é curtir e ao mesmo tempo cuidar, pois curtir não significa ter que acabar com o carro. Aliás, se ele ralou pra conquistar esse objetivo, não vai ser tão fácil comprar outro carrão quando esse for para o ferro velho por pura irresponsabilidade.


Se você cuidaria tão bem de um carrão, por que não fazer o mesmo com a água encanada, já que é tão gostoso abrir a torneira e o chuveiro e ter essa riqueza escorrendo com abundância? E por que não se tornar um viajante sustentável pra preservar os pontos turísticos e as belezas desse mundo? E por que não comprar alimentos do pequeno produtor e pequeno empreendedor, e apoiar apenas marcas e empresas que são responsáveis com a matéria prima que usam, com as pessoas que empregam e com a economia do nosso país?


É que não te explicaram direito o que é sustentabilidade


Sustentabilidade não é uma virtude de pessoas evoluídas. Não é nem auto-sacrifício. É agir de forma eficiente por interesse próprio mesmo, com o objetivo de conquistar e garantir a continuidade dos seus confortos. Um estilo de vida sustentável não implica que a pessoa tem que desistir das coisas "boas" pra poluir menos, mas uma forma mais inteligente de manter seus interesses por mais tempo.


Alguém que veste um brechó chic não está menos glamourosa do que outra que veste "loja de departamentos" com a exploração escrava de etnias chinesas. Ou será que o zé que abriu uma conta digital e deixou de pagar tarifas abusivas de manutenção de conta e cartão de crédito está sofrendo mais do que o joão que continua endividado no cheque especial do banco tradicional?


Se você acha que dar o primeiro passo para adotar hábitos mais responsáveis é uma ação de altruísmo, pensa de novo. Não tô dizendo que pessoas que adotaram a responsabilidade como estilo de vida são egoístas, ou não pensam no próximo. Mas elas não deixaram de pensar em si mesmas e naqueles prazeres que querem manter na vida. Aliás, a motivação é exatamente essa.


Trazendo para o âmbito econômico, as empresas que tem a sustentabilidade como um valor central (e não como uma ação paralela à cadeia produtiva) se garantem mais e melhor no mercado, pois isso exige delas um planejamento mais preciso e a longo prazo. Tanto é que, quando uma matéria prima entra em escassez e fica muito cara, as empresas começam a reclicar e fazer investimentos altíssimos para tentar manter os lucros. Mas as companhias sustentáveis já fizeram isso, e estão na sombra com água fresca, assistindo de camarote os despreparados correr atrás do prejuízo.


Por exemplo, todo ano acontece isso durante a seca em cidades grandes. A gestão sustentável é uma forma mais sofisticada de administrar uma empresa (ou uma casa, ou a sua conta bancária).


Então, de onde vem essa ideia de que sustentabilidade é coisa de monje?


É que a gente acha que agir em interesse próprio é sinônimo de egoísmo.


O lucro [a qualquer custo] é o valor central do modelo econômico vigente, e a gente tá acostumado a pensar que quando fazemos algo que beneficia o outro, isso é filantropia e altruísmo. Mas egoísmo é agir só pra você e prejudicar o outro. Interesse próprio é lutar por uma coisa que você gosta, e o vizinho também pode ter.


Viver em um modelo econômico sustentável é garantir os seus interesses pessoais de forma inteligente. E mesmo sem querer, isso vai garantir os interesses dos outros também, sem te prejudicar em nada. Quer ter água pra continuar tomando banhos quentes pela vida toda? Começa a economizar agora e a exigir que indústria e governo apliquem planos concretos e imediatos de reuso da água e gestão de resíduos (que são poluentes). Afinal, você sabe que a crise hídrica não é culpa da população, mas da indústria, né?


Quando vemos ambientalistas defendendo preservação do meio ambiente e conservação de espécies, acha que eles estão fazendo isso só por amor aos bichinhos? Ou por saber que sem florestas acabamos sem água, sem comida e doentes? Sim, doenças como a febre amarela e o Covid19 são resultado da falta de planos para conservação da biodiversidade e da exploração ambiental (leia sobre isso aqui).


Se quiser viver seus luxos e ter confortos duradouros...


... seja sustentável.


Quanto mais consumirmos, mais estimulamos a exploração dos recursos naturais para produção de bens, luxos e conveniência que queremos. Cuide do seu carrão, e você não precisará sair por aí num carro caindo aos pedaços. Invente as suas prórpias estratégias, use a criatividade! Seja inteligente e eficiente!


Explorar a natureza e a sociedade pra enriquecer não vai te garantir qualidade de vida quando a água acabar, quando a floresta virar deserto e se esgotar toda a matéria prima pra produzir o seu carrão, e todas aquelas coisas confortáveis que você queria ter. Vamos acabar juntos na miséria.


Como fazer isso? Invista nas as versões sustentáveis dos seus luxos: seu carro elétrico, seu ar condicionado "verde", sua roupa de grife de brechó, sua comida gourmet com ingredientes produzidos pelo pequeno produtor, seus presentes artesanais... Seja mais, exerça o poder de compra que a sua renda permitir de forma inteligente.


Olha que bizarro: Você ama um lugarzinho nesse mundo? É um paraíso turístico? Quer salvá-lo? Volte lá quantas vezes puder, cada vez de forma mais responsável e sustentável! Veja como falamos isso aqui, e o exemplo de como fazer isso em Veneza, na Itália.


Em qualquer lugar que você for visitar, se empenhe nas alternativas genuinamente responsáveis, em que os habitantes locais saiam ganhando.


Então vamos começar a melhorar as previsões do futuro pelo nosso prato, pelo nosso guarda-roupas e pela nossa mala de viagem?

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