• Sabrina

Pertencer a um grupo é bom, até certo ponto: o peso limitador dos rótulos e como eles nos afetam

Atualizado: Mai 11

Ecochato, ambientalista, vegano, fitness, slowtravel, lowcarb, feminista... Me ajuda aí: quais são os rótulos (muitos deles pejorativos) das tribos que são mais associadas a iniciativas sociais ou ambientais?


Agora me fala, em qual(is) deles você se encaixa?



O ser humano é essencialmente social, e a forma como uma pessoa se insere em qualquer grupo ou comunidade acontece pela afinidade: Se eu me identifico com os valores de um grupo, busco fazer parte dele. E se os membros do grupo me reconhecem como um semelhante, eles me aceitam.


A formação e a identidade desses grupos gera rótulos. Isso pode ser legal, pois trazer comigo a bandeira do grupo com o qual eu me identifico me ajuda a me encontrar na sociedade. Isso pode ser uma coisa muito positiva, e já falamos aqui no blog sobre a importância de se conectar à "sua comunidade" para se manter firme nos seus valores. Só que pode ter o lado negativo disso: os estereótipos. Já falamos também de estereótipos culturais no contexto da viagem em outros post, e o quanto isso é reducionista e pode ser prejudicial.


Sabe qual é o problema da adoção de rótulos?


1. Faz a gente associar as regras do grupo à reputação


Se um alguém vê um vegetariano comendo uma coxinha, fica assim:

"Meooo deooos, que absruuurdooo! Mas que tipo de vegetariano é vocêeee???"

Aí a gente sente que, se quebrar uma ou outra regra, vai ser visto como a pessoa que não tem perseverança, resiliência, comprometimento com o discurso... E não como a pessoa que só tava doida por uma coxinha.


Eu comecei a ser vegetariana aos 14. Aí, eu ficava super chateada de ser convidada pros churrascos e só comer pão de alho. Tinha hora que me dava uma fooome imensa, e uma vontaaaaade beliscar uma carninha! Mas não, não podia. As pessoas já sabiam que eu era vegetariana, o que elas iriam pensar de mim? Triste, né?


Eu sinto constantemente que preciso me explicar, dar justificativa pros outros não pensarem que eu sou uma pessoa sem firmeza de postura. Inclusive, parece que a gente não pode ser pessoas em processo de crescimento, não. A gente já tem que ser crescido, pronto, certo de tudo e dono do conhecimento de todo o universo pra, só então, ter valor suficiente de se inserir em uma luta ou propósito.


Até aqui você se identificou comigo? Vamo fazer um grupo e ter o nosso próprio rótulo? Péra...


2. Faz a gente achar que pode julgar as atitudes alheias


Eu vou confessar outra coisa aqui: eu sigo muitos perfis e me conecto a muitas pessoas veganas. Aliás faço uma pausa pra avisar que o veganismo não é dieta, é filosofia. O veganismo não só levanta debates econômicos, sociais e políticos que me fazem pensar fora da caixinha, mas também promove uma alimentação saudável e natural (geralmente). Eu fui vegetariana por 10 anos e deixei de ser por questões que não vêm ao caso. Minha dieta é 95% vegetal, eu não como uma carne há 8 meses, por exemplo.


E eu gosto de cozinhar. Aí, às vezes faço aquela pizza s e n s a c i o n a l e fico doida pra postar uma foto, mas... fico com tanto medo dos dedos apontando pra mim, que desisto.


Quando eu tô viajando e às vezes caio de cara naquele sandubão lindo cheio de coisa, e como todo (bom) viajante, quero postar enxurradas de fotos. Aí paro, penso e deixo pra lá. E eu também não aguento mais gente que fica falando que "não pode" comer carboidrato de manhã!


Qual o motivo disso? Muita gente acha que, para defender e promover a sustentabilidade, eu preciso colocar nas minhas costas todos os rótulos de luta social e ambiental.


"Como assim você trabalha com a sustentabilidade mas não é vegana?"


Ai, gente, eu amo vegetais, e sou doida pra avançar na qualidade da minha alimentação! Mas não quero ficar dando satisfação das razões pelas quais ainda não voltei a ser vegetariana ou evoluí pro veganismo. Não importa, sabe. Só que pra isso eu sinto que não posso ser quem eu sou, e tenho que ficar me explicando o tempo todo.


Mas eu admito que às vezes sinto vontade apontar o dedo também. Apesar de que, na minha cabeça, eu só quero "dar um toque" pra pessoa, como: "Ei, você sabia que se substituir esse ovo por 50 g de grão de bico vai ter x% mais proteína?" Você não quer julgar, mas se acha na obrigação de falar ou na posição de ensinar. Controle suas palavras...


E aonde eu quero chegar com tudo isso?


3. Rótulos fazem as pessoas acreditar que elas precisam ter um pra adotar práticas do bem


Nãããããooo!!!!

Essa é ponto crucial: Você acredita no mito de que precisa ter um rótulo socialmente validado pra tomar uma atitude e fazer a sua parte?


Você precisa ser vegano pra diminuir seu consumo de carne em um dia na semana?


Tem que ser ambientalista pra economizar água ou energia elétrica?


Ou precisa ser #lixozero pra começar a contribuir com a reciclagem?


Ou se for um(a) auntônomo(a) ou empreendedor(a): Tem que esperar seu negócio ser milionário pra começar a ser sustentável?


Ah, pára né!


Eu perco até a paciência com gente pseudo-militante que adota rótulos e fica fiscalizando a vida dos outros (existe gente assim, acredita). Mas também fico pistola com quem se esconde atrás da desculpa. Esse desserviço só tem um resultado: Cultivar o ranço das pessoas contra as atitudes responsáveis e atrasar o nosso desenvolvimento enquanto sociedade e humanidade.


Então, esse post tem dois objetivos, duas mensagens principais:


Primeiro: se você for um ecochato que fica olhando o prato do outro, ou o que as pessoas postam ou fazem, PÁRA! Vai ocupar a sua vida! Vai pegar uma luta útil pra concentrar toda essa energia e faça algo que realmente promova o bem e não desestimule as pessoas!


Segundo: se você se sente intimidado, ou SE USA A DESCULPA DE QUE NÃO É NENHUM AMBIENTALISTA PRA COMEÇAR A FAZER A SUA PARTE... Já sabe né? Cresce.


Apesar de ter um pouco de revolta nesse texto, ele termina com muito carinho pra você que leu. Seja gentil e se afaste de quem te julga, e faz parecer que precisa ter credenciais pra ser um ser humano responsável.


Seja você, só você. Sem rótulos, sem tribos, sem radicalizar posicionamentos e sem viver de reputação. Se liberte disso, se não seu crescimento pessoal nunca vai começar. Tô falando por experiência, me escuta. Se no futuro você sentir necessidade de se integrar a uma tribo, faça. Se não, só faça a sua parte e seja você. E seja uma pessoa responsável e digna perante a sua consciência, é você com você mesmo.


Seja leve, e leve um abraço!

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