• Sabrina

O que a pandemia tem a ver com sustentabilidade? Entenda o que acontece nos bastidores econômicos

Atualizado: Mai 22

Neste texto você vai entender como economia, sociedade, saúde e meio ambiente se amarram em uma pandemia, e a motivação que está por trás das decisões políticas durante a crise. Este artigo é parte da minha tese de doutorado que fala das mudanças ambientais e o controle de doenças infecciosas.


Vou definir brevemente alguns conceitos e posicioná-los na complexa relação entre os pilares da sustentabilidade (natureza, sociedade e economia) para que você perceba o quão longe vão os efeitos colaterais da negligência humana.



O que são doenças infecciosas?

(se você já manja desse assunto, pula para o próximo tópico)


São aquelas doenças que são causadas por um agente transmissível (como um vírus ou uma bactéria, por exemplo). Existem duas formas principais de transmissão: a direta, que é de pessoa para pessoa, ou a indireta, que geralmente envolve um vetor. A gripe e a SARS-Cov2 (que é a infecção do coronavírus) são doenças infecciosas de transmissão direta. Já a dengue, malária e febre amarela são exemplos de enfermidades de transmissão indireta, pois elas são transmitidas por um mosquito vetor. Algumas doenças podem ser as duas coisas ao mesmo tempo, como a cólera.


O que é uma epidemia?


Muita gente já entendeu que a coisa ficou séria quando os jornais deixaram de chamar o Covid19 de epidemia e começaram a falar de pandemia.


Quando uma doença ocorre normalmente numa população sem causar muito estrago, ela é uma endemia: nesse caso a população já está acostumada com aquele fenômeno. Mesmo que ele cause algumas vítimas, essa doença acontece em níveis moderados e já faz parte da dinâmica daquela população. "Endo" significa dentro, uma coisa que já faz parte da outra. É quando "morrer dessa doença ali é tão natural como morrer de outra coisa."


Mas quando aquela doença se propaga além da conta, ela pode passar a ser uma epidemia. Foi assim que o Covid19 começou lá na China. A transmissão da doença ficou descontrolada, em níveis muito maiores do que aquela população conseguiria aguentar. "Epi" significa "ao redor": quando o seu efeito é muito forte e já ultrapassou a capacidade de a população aguentar isso por muito tempo.


Pandemia é auto-explicativo. "Pan" significa "todo". É quando ela ultrapassa os limites de várias populações.


E a sustentabilidade com isso?


De forma objetiva, sustentabilidade é uma característica de um sistema perfeitamente capaz de se sustentar sem provocar colapsos. Tem um texto mais explicativo aqui, mas quando a humanidade for capaz de sobreviver sem depender de exploração natural, econômica ou social, ela será um sistema sustentável: ou seja, capaz de se sustentar.


Então, daqui pra frente vou te mostrar o que a sustentabilidade tem a ver com epidemias, indo no fundo: relacionando cada um dos três elementos sustentáveis: a natureza, a sociedade e a economia.




1. O que tem a ver: epidemias e meio ambiente?


Embora a gente esteja mais preocupado com doenças infecciosas que afetam humanos, essas doenças que eu citei no início do texto não afetam só a gente. Elas também infectam outros animais. Na verdade elas surgem no ambiente natural, em equilíbrio com outras espécies, como um componente da natureza. Mas à medida que a gente começa a invadir o espaço natural, a gente entra no jogo.


E não é só isso:

Quando a gente começa a modificar esse espaço (a natureza) que tá quietinho nas suas próprias dinâmicas, é como se a gente fosse provocar um vulcão adormecido que vai explodir lava na nossa cara. Como?


Alguns exemplos REAIS:

1. Se destruímos as árvores de uma floresta tropical, isso causa mudança no regime de chuvas e controle da temperatura (entre outras coisas). O que pode fazer mosquitos se reproduzirem mais e a levar o patógeno mais longe. Pronto, a doença chega a nós. Diversas doenças tem esse componente sazonal e climático: Dengue, Zika, Malária são exemplos disso. Veja esse artigo.


2. Se desmatamos um ambiente natural, acabamos destruindo as populações dos outros animais que habitam ali, e que são os hospedeiros naturais dessas doenças. Por probabilidade, quem se torna mais suscetível àquela doença? Na ausência dos hospedeiros naturais, nós somos os próximos da fila. É o caso da Febre Amarela, Ebola e Coronavírus.


3. Se mexemos na terra, seja para agricultura ou extração de recursos, podemos desenterrar patógenos que já estão escondidos da humanidade há eras. Temos imunidade para uma doença desconhecida? Não. Resultado: nos damos mal outra vez. Esse artigo explica isso.


4. Se poluímos e contaminamos as águas que servem para o abastecimento de outras populações, aumentamos muito as chances dessa água veicular agentes causadores de muitas infecções. O que acontece? Populações humanas se ferrando outra vez. Cólera é o exemplo mais clássico, mas não o único.


Lição: quanto maior, mais rápida e mais intensa for a exploração dos recursos naturais, mais brusca é a reação da natureza, pois ela perde todas as suas defesas, ou seja, a sua própria homeostase: a capacidade de absorver e dissolver o impacto em si mesma e não deixar o dano se propagar. Sem essa propriedade, a coisa vira uma catástrofe global, em outras palavras: uma pandemia.


O que isso tem a ver com sustentabilidade ambiental?


Bom, veja o exemplo da economia circular, que consiste em reutilizar os recursos que já foram explorados da natureza e diminuir a necessidade de exploração de novos recursos. Isso dá tempo para que a natureza se recomponha e a gente retire os seus bens naturais em uma velocidade que ela consegue oferecer (exemplo de ações: reciclagem, compostagem, consumo minimalista).


Sustentabilidade não é parar de usar os recursos da natureza. É usar a inteligência pra continuar aproveitando aquilo que já temos em circulação, e diminuir a necessidade de sair atropelando tudo pra ter sempre mais e mais. É como fazer saques de uma conta no banco: se você saca a mesma quantidade que recebe mensalmente, fica tudo bem. Se tenta sacar mais do que recebe, o cheque especial vai comer seu CPF e te deixar devedor na praça.


Se explorarmos menos e mais devagar, não quebraremos a homeostase da natureza: teremos o que precisamos e as doenças permanecerão em seu equilíbrio dinâmico. Assim elas não chegam até nós, assolando a humanidade.


2. Falando em sociedade: o que ela tem a ver com a epidemia?


Existem características das populações que interferem no espalhamento de uma doença até ela virar uma epidemia, tanto em populações de bicho como de gente, dentro ou fora das florestas:


Os primeiros são a densidade e a distribuição populacional.


Tanto as doenças de transmissão direta (de pessoa pra pessoa) como as indiretas (transmitidas por insetos, por exemplo) dependem desses elementos: o número de pessoas num mesmo espaço (= densidade) e a distribuição delas nesse espaço.


Quanto maior o número de pessoas espremidas num mesmo lugar, maior a taxa de contatos entre elas, e portanto, maior é a taxa de propagação da doença. Existem cálculos matemáticos muito precisos que relacionam o número de pessoas que você encontra por dia com a probabilidade de você pegar uma doença ou não. Pensa assim: uma pessoa que trabalha numa cidade grande sai de casa e pega transporte público, trabalha o dia inteiro e volta de coletivo depois. Quantas pessoas ela encontrou no dia? Multiplicando isso pela probabilidade individual de cada pessoa ter aquela doença, você tem números muito exatos da importância de isolamento social.


Isso nos leva a um outro componente que relaciona esse tópico "2. Sociedade" com o tópico anterior "1. Meio ambiente": Se chama capacidade de suporte.


Quando o número de habitantes de um certo lugar se torna muito alto, o espaço vai ficando apertado, as pessoas vão ficando muito perto umas das outras, e isso facilita (MUITO) a propagação de doenças de transmissão direta. Essa parte é clara.


Mas quando essa população cresce demais num lugar só, ela também começa a explorar demais os recursos daquele lugar até esgotar tudo. Aí, a luta por esses recursos (= espaço, água, alimento, trabalho) provoca um colapso. Esse colapso significa que atingimos o limite da natureza (= a sua capacidade de suporte): ela não consegue mais nos manter. Esse é o momento ideal que faz uma doença se propagar: quanto pior estiver o cenário, mais rápida e voraz será a epidemia.


Isso nos leva ao terceiro ponto de doenças infecciosas e sociedade: a desigualdade social.


Na situação anterior, quando acontece um colapso por causa da escassez de recursos (pode ser comida, casa, dinheiro), sempre tem uns espertinhos que escondem um restinho de recurso enquanto outros não tem nada. Sabe qual é o resultado disso? O colapso acontece mais cedo e mata mais gente. Aquele egoísta que quer sempre mais, vai lá escondido e rouba os recursos pra ele. Isso faz os recursos acabarem mais cedo e a catástrofe ser ainda maior.


E pra ficar mais bizarro ainda, não é só a desigualdade econômica que provoca isso: a discriminação racial, religiosa, de gênero ou qualquer segregação que coloca um grupo de pessoas em vulnerabilidade social provoca o aumento da propagação de um patógeno, pior do que se todos os membros daquela população tivessem as mesmas condições de se cuidar, se informar e agir para se proteger.


E eu nem preciso entrar numa análise antropológica pra falar como discriminações afetam o comportamento das pessoas, e isso pode torná-las mais suscetíveis ainda. Também nem preciso me estender pra dizer que desigualdade social tem tudo a ver com a densidade e distribuição espacial (exemplo: favelas e ocupações).


Mas o recado é o seguinte: lembra o espertinho que roubava os recursos achando que iria se proteger? Então, ele também é afetado. Se alguém (ou muitos alguéns) na sua população está(ão) socialmente enfraquecido(s), isso torna VOCÊ mais suscetível, pois aumenta as chances de o vírus caminhar pela população até chegar a você. Em termos técnicos: a velocidade de propagação do patógeno na população depende da oferta de hospedeiros suscetíveis (e de outros componentes).


Quando existem pessoas em situação de extrema pobreza, o colapso causado por uma pandemia é mais rápido, mais generalizado e mais grave para todos, mesmo os privilegiados. O prejuízo é maior. Quando o vírus encontra uma pessoa, ele não quer saber quem ela é, ou quanto ela tem no banco. Independentemente do espertinho ter o recurso guardado, o vírus vai chegar até ele por meio dos outros milhares que ele deixou na fome.


E se tem uma coisa que esse vírus ensinou é que não existe raça, etnia, classe social, orientação, religião, cultura, fronteira política... Mas por outro lado, existe sim: Não em termos biológicos, pois o vírus infecta todo mundo, mas a sua dinâmica de propagação e os seus efeitos colaterais são totalmente dependentes de como estruturamos a nossa sociedade.


3. E o que uma epidemia tem a ver com a economia


É aí que vem a treta. É decidir quais números realmente importam.


Primeiro, já falamos que um sistema capaz de se sustentar não pode depender de nenhum tipo de exploração. Se uma empresa precisa explorar mão-de-obra, sonegar impostos e destruir a natureza pra sobreviver, é porque ela não consegue pagar as próprias contas de forma decente, então ela não é um empreendimento economicamente viável.


Acontece que todo cidadão, mesmo aquele que não tem uma empresa, é responsável por isso: Pois compramos, e com o nosso dinheiro apoiamos marcas e empresas e as suas posturas. Se não tivermos critérios, é possível que estejamos financiando atrocidades como a escravidão, desastres ambientais e inclusive a exploração do nosso próprio povo.


Mas se a desigualdade social reduz o poder aquisitivo de boa parte da população, isso força essas pessoas a comprarem itens ao menor custo possível, que em geral são oferecidos por marcas que não promovem responsabilidade social, e isso retroalimenta o ciclo vicioso da exploração. Entre as responsabilidades sociais estão as relações trabalhistas, que vamos falar agora.


Mas isso tem alguma coisa a ver com epi-pandemia?

Tem sim.


Você sabia que o valor de todo trabalhador é calculado com base no quanto ele é capaz de produzir ao longo da vida? É como se a sua vida valesse o lucro que você gera ao longo dela. É assim que se faz os cálculos dos seguros de vida. E é com base nisso que sabemos o quanto uma doença custa em termos financeiros: se chama Carga de Morbidade. Quanto um trabalhador doente vai custar à economia nacional?


Quando uma epidemia se instala em uma população, temos duas possibilidades: parar tudo e nos esconder do vírus que passeia pela rua, ou continuar trabalhando para manter o fluxo produtivo. O que fazemos para decidir isso: é cruel, mas basicamente, calculam se você vale mais vivo e doente, ou morto.


Imagina a situação: uma empresa tem 10 funcionários quando começa uma epidemia. Se um trabalhador tiver coronavírus, ele vai ficar uns 20 a 30 dias afastado, recebendo seu salário e benefícios que saem do bolso do empregador. Depois que ele é curado e volta, outra pessoa fica doente, e sai mais um mês de salário do bolso do dono da empresa. E aí os 10 funcionários vão fazendo um rodízio e o empresário desembolsa o equivalente a um mês de salário pra cada um. No total, são 10 meses de salários.


Problema 1: O coronavírus não infecta uma pessoa por vez, não existe rodízio. É por isso que temos uma pandemia. E essa é a definição de colapso.


Problema 2: As chances de cada funcionário falecer são de 6.6% (média global calculada com os dados da OMS em 20/05/2020). Para o empregador, é só contratar outra pessoa. Para o funcionário e para a sua família o prejuízo é bem maior.


Problema 3: Se cada um dos 10 funcionários vai custar um mês de salário e benefícios do empregador, não teria sido melhor parar tudo por 30 dias e cada um ficar na sua casa sem correr o risco enquanto o vírus se extingue? Sim, mas porque não fazemos isso?

  1. Empregadores e governos não fizeram esses cálculos, mas os epidemiologistas sim.

  2. Um sistema que se mantém com trabalhadores informais não precisa se preocupar com essas contas, pois eles não recebem benefício quando estão doentes.

  3. Um isolamento de 30 dias teria funcionado no começo. Depois que a epidemia se instalou, o período necessário é bem mais longo (e os cientistas já fizeram esses cálculos), e consequentemente, o prejuízo também.


Problema 4: No cenário 1 em que todos os funcionários param e vão para casa ajudar a conter a epidemia, os empresários têm prejuízo econômico e o governo entra com auxílios financeiros.


Mas no cenário 2 em que nada é feito, uma parcela considerável da população morre ou fica doente e perde dias de trabalho, os empresários continuam levando o prejuízo e o governo entra em auxílio (supostamente). O sistema de saúde entra em colapso e o governo também tem que auxiliar. As famílias perdem seus membros e arcam com os prejuízos sociais e econômicos da crise (já que o governo usa o dinheiro do povo pra tudo isso), e os que sobrevivem ainda podem perder seu emprego já que o seu empregador faliu. Aí o governo tem que tapar mais esse buraco com seguros sociais.


Qual dos dois cenários poderia ter sido a base de um plano estratégico para salvar a economia e evitar um colapso generalizado e o esgotamento das receitas pública e privada?


Problema 5: A informalidade não entra nesses cálculos. O afastamento de um funcionário registrado gera custos para o empregador, mas a incapacidade de um trabalhador informal em decorrência de uma doença entra na conta de quem? A informalidade acaba sendo uma conveniência.


Quando falamos de sustentabilidade econômica e social, dizemos que um sistema sustentável não pode explorar para sobreviver. E é claro que a situação é muito mais complexa do que esses cenários que eu apresentei aqui, mas isso serve para mostrar que a sustentabilidade econômica é possível quando:

  • Se age no momento certo, prevenindo prejuízos generalizados tanto para os cofres públicos como para as empresas privadas

  • As prioridades são bem estabelecidas (exemplo: valor x preço de vidas)

  • Os devidos investimentos são feitos ANTES da epidemia se instalar (como ciência, pesquisa, saúde...)

  • Políticas sociais estabelecem igualdade e acesso igualitário aos direitos de saúde, moradia...


Entre os diversos outros aspectos econômicos da sustentabilidade em face de uma pandemia, encerramos por aqui. Tudo isso mostra que as decisões políticas e econômicas tomadas até agora não foram feitas com base na ciência ou no valor da vida. E nem com a preocupação de cuidar da economia nacional, mas para proteger o bolso de alguns poucos milionários que usam trabalhadores como escudo humano a fim de manter a própria riqueza. Quando a força de trabalho colapsar, não haverá medida que salve a economia.


Discutir sustentabilidade num cenário caótico é exaustivo, mas serve pra perceber duas coisas: o quão distante estamos do ideal, e ao mesmo tempo, onde EXATAMENTE precisamos agir.


Se informe e se posicione. Na próxima pandemia (sim, haverá outra em breve), estaremos mais preparados. Aliás, podemos até evitar que outras ondas venham. Se quiser saber como mudar o mundo, acompanhe o blog.


Um abraço!



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