• Sabrina

Rochemolles: um vilarejo abandonado e uma trilha encantadora nos alpes italianos

No momento em que escrevo este texto estou em Bardonecchia, uma cidadezinha italiana muito charmosa de Piemonte na fronteira com a França, que possui uma cultura caracteristicamente mista por ter oscilado entre o domínio francês e italiano nos últimos séculos.


Eu desembarquei em Bardonecchia com a intenção de encontrar algumas trilhas e explorar as belezas naturais. Abri o mapa num raio de 10 km da cidade encontrei uma localidade que se chama Rochemolles, e decidi pegar uma estrada até lá sem fazer nenhuma ideia do que seria. Se era uma floresta, uma montanha, uma cidade... eu iria descobrir.


Essa decisão foi tomada enquanto estava no café Havana, um lugarzinho muito agradável na pracinha da cidade que fica a 2 minutos da estação de trem. Peguei a mochila cargueira e fui em direção ao norte da cidade.

Como a gente pode perceber quando admiramos a paisagem de Bardonecchia, a cidade está cercada pelos Alpes nevados. Então você pode deduzir que qualquer lugar para onde se vá será uma longa subida. E esta subida em particular era por uma estradinha de asfalto bem sinuosa e estreita, com o asfalto sem manutenção nem acostamento e cercada de precipícios pelos dois lados. Mas por ser um lugar que quase não passa carro, eu achei o trajeto bem gostoso e tranquilo.


O trecho entre o centro de Bardonecchia e o tal destino de Rochemolles era de aproximadamente 7 km, mas eu não sei estimar o tempo de percurso pois parei várias vezes no caminho. Por causa da mochila pesada, do preparo físico de quarentener inadequado para a subida, e principalmente pela vista estonteante que se tem desde o primeiro minuto que me afastei do centro urbano. Margeada por diversas trilhas entre florestas de pinheiros verdes, eu parei muitas vezes.


Quanto mais eu avançava a subida, mais ficava hipnotizada com a vista, a paisagem, o verde, os pássaros... e maior era a motivação para continuar subindo. Fiquei sozinha por quase todo o tempo, exceto um ou outro carro que passava bem esporadicamente. Lá pela metade do percurso fui ultrapassada por uns três ciclistas, no máximo. Era eu, o verde, os pássaros, e as fontes de água pelo caminho.


Aliás, ter comprado frutas e comidas foi imprescindível! Fiz um piquininque embaixo de uma árvore com a vista para os alpes.


Eu estava acompanhando a margem de um rio que se tornava mais largo e interessante à medida que eu avançava. Aí avistei de longe uma ponte de pedras que se revelou ser a entrada de um vilarejo com casas de pedra também. E aí uma placa: Rochemolles! Aí que eu entendi que Rochemolles era um vilarejo (mas a estrada continuava depois dele, e já vou falar dela).


De longe todas as casas eram de pedra e madeira, e eu via muitas flores. Vi um dos ciclistas parado perto da ponte aparentando estar esperando alguém. Também vi dois carros parados mas não vi mais ninguém. Avancei admirada com a arquitetura antiga típica dos antigos vilarejos italianos, e realmente não vi nenhuma pessoa ali! Era um dia tão lindo, o último da primavera!


Admirada com o lugar, atravessei em direção a uma cascata que caía das montanhas, e aí encontrei um senhor de meia idade que estava trabalhando na frente da casa dele, na beira dessa estrada que eu estava. Ele me observava (claro, éramos as duas únicas almas vivas ali) e por isso perguntei: "Posso passar por aqui?" apontando para a estrada na frente da casa dele em direção à cascata. Ele disse: "até onde quiser, pode ir andando até à Espanha se desejar".


Aí ele me catou para conversar e percebendo pelo sotaque que eu era estrangeira, deduziu que fosse espanhola. Quando disse que era do Brasil ele exclamou: "ah, melhor ainda!" Aí ficou me contando de uma super viagem que ele fez pela América do Sul quando era jovem, e que gostou muito do sotaque mineiro (a "cadência do português", segundo ele) de Belo Horizonte. Demorei um pouco a me desvencilhar da conversa e seguir pelo campo florido até a cascata. Depois sentei embaixo de uma árvore e fiquei ali por um tempo refletindo sobre a fortuna que é explorar caminhos improváveis.


Quando finalmente voltei, o senhor se levantou de um canteiro de batatas onde estava trabalhando do outro lado da estrada em frente à sua casa e se sentou novamente pra conversar mais comigo. Aí ele me contou a história de Rochemolles que eu vou parafrasear aqui:


"Eu nasci e fui criado aqui. A vida era simples, cada família tinha umas vaquinhas e umas ovelhas, criava as suas galinhas e plantava igual eu tô fazendo agora. Esse campo aí era todo cultivado. Mas em 1961, eu era um garoto assim, veio uma avalanche muito forte e destruiu quase tudo, e matou 4 pessoas. Aí, quem sobreviveu e ficou sem casa, foi embora para Bardonecchia. Depois de um tempo, a vida mudou, o jeito de trabalhar mudou... aí não fazia mais sentido voltar pra cá."


Então eu perguntei: "Mas e os turistas, não tem ninguém?"


"Ah, sim, um pouco. Alguns proprietários reconstruíram as casa e alugavam para turistas. Vocês gostam dessa experiência de vida no campo, como vocês dizem. Mas aí os donos começaram a querer voltar para passar as férias de verão, e não alugam mais para turistas. Só que poucas pessoas fazem isso. É o que eu estou fazendo, agora que sou aposentado."


A conversa foi longa. Falamos do Brasil, da epidemia, do governo, do que eu fazia na Itália, de viajar... O papo terminou quando ele viu um carro que se aproximava pela estrada, era a filha dele. Ele me apresentou e gentilmente elogiou meu "italiano" pra ela. Ele ficou admirado em encontrar uma brasileira perambulando pela Itália durante a pandemia, foi o que disse a ela.


Me despedi dos simpáticos nativos e segui caminho, mas não sem antes explorar mais um pouco das casas abandonadas e ruínas da Rochemolles de 60 anos atrás. Depois de alguns registros resolvi retomar o caminho de volta, mas não resisti e segui a estrada mais um pouquinho até uma cachoeira e uma placa que indicava que havia mais beleza pelos próximos 5 km. Infelizmente já era o fim do dia e eu tive que voltar.


A maior parte das casas ainda está abandonada e em ruínas

Vi uma placa que indicava que aquela era a estrada de cascalho mais alta de toda a Europa (não me pergunte sobre o sentido disso), com 1627 metros de altitude e 20,4 km. No caminho de volta, depois de um quilômetro de caminhada um rapaz jovem me ofereceu uma carona. Claro que aceitei! Já fui entrando no carro dizendo que não falava bem italiano (como se ele já não tivesse percebido), e ele me perguntou de onde eu era e o que tinha ido fazer ali. Ele era neto de uma antiga moradora de Rochemolles e me contou as mesmas histórias daquele senhor que esqueci de perguntar o nome. Também me falou do estatus de "estrada mais alta da Europa".


Ele perguntou se eu tinha avançado para além do vilarejo, pois o que tinha para lá era mais belo ainda. E também me contou que no verão há excursões gratuitas de Bardonecchia até lá, mas o verão começaria dali a 2 dias e eu provavelmente estaria explorando outros vilarejos. Ele foi super gentil de me levar até o hotel onde eu ficaria naquele dia (graças a Deus de novo!), e dessa vez lembrei de perguntar seu nome: Andrea.


Por fim, fiz esse relato para estimular a sua curiosidade pela exploração aventureira do interior da Itália. Se for ao norte do país, não deixe de explorar Piemonte, Torino, Bardonecchia e, por fim, Rochemolles. Leve comida e uma garrafinha para encher nas fontes no caminho. Só se vai a pé ou de carro (ou bicicleta), mas eu garanto que será uma aventura dos sonhos!


Aquele senhor me disse que há um restaurante e uma pousada ali, vou deixar um mapa com essas informações pra você. Vai, nem que seja para passar o dia como eu fiz. É uma trilha incrível (é sombreada) e uma experiência de encher os olhos!



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