• Sabrina

Slow travel é uma questão de maturidade: só quem é experiente na estrada consegue entender

Quando eu fui a Ceresole Reale, na Itália, vi milhares de campings lotados de trailers no auge do verão europeu, com famílias inteiras curtindo cada pedacinho daquela cittadina verde e gelada. O que eles fazem é uma forma de slow travel, ou viagem lenta: passam semanas desfrutando todos os cantinhos do lugar e suas experiências, bem aos pouquinhos. Mas o que é que os casais aposentados e os pais de crianças pequenas já entenderam que nós ainda não entendemos?



Eu sei que pra muita gente isso ainda é uma loucura: Como assim desfrutar um ou poucos lugares pode ser melhor do que visitar vários no mesmo tempo disponível? Eu compreendo, ainda estou nesse processo. Pra quem já conhece a modalidade da viagem viagem lenta e sabe das suas vantagens e desvantagens, eu vou falar aqui da mentalidade por trás dessa prática.


Há muito tempo eu venho pensando sobre formas de explicar como desacelerar é importante, e que viajar devagar é a maneira mais genuína de desfrutar uma experiência transcultural transformadora (leia sobre como fazer uma viagem se tornar um item no seu currículo). Mas quanto mais eu me aprofundo nesse tema e replico essa prática nas minhas viagens, mais eu percebo que é uma questão de maturidade: só vai entender quem já "viveu" o suficiente para entender.


"Viver" não significa aqui tempo de vida ou acúmulo de experiências. Também não se refere a uma pessoa que já viajou o mundo inteiro e agora quer sossegar. Estou falando de mentes que se debruçaram sobre os mistérios da vida, sentido e conexão entre os humanos e da humanidade com o planeta. Pessoas que se dedicam a entender as culturas e os componentes sociais que permeiam as experiências que vivemos numa viagem, e mais ainda, estou falando de viajantes genuínos, e não de turistas.


A prática geral do turismo acelerado faz muito sentido para a massa: você trabalha o ano inteiro, guarda um dinheirinho (ou paga as dívidas da viagem anterior), e quando tem a oportunidade, quer cobrir a maior área possível. Se der, uma cidade por dia, um país em menos de uma semana... Quer bater o ponto nos principais destinos turísticos, colecionar carimbos no passaporte e postar as fotos nas redes sociais pra poder falar: "Sim, já fui ao Coliseu, e você?"


Essas pessoas costumam ser bem sensíveis aos julgamentos alheios: "Como assim você foi a Milão e não visitou o Quartiere della Moda?" "Mas se você for a Paris e não visitar a Torre Eiffel, você não foi de fato a Paris." Parece que as sugestões de experiências marcantes se tornaram a ditadura do imperdível, o parâmetro para avaliar se a viagem daquela pessoa foi digna do carimbo no passaporte ou não. Ninguém quer ouvir: "Você não visitou nada de importante, não sabe o que é realmente a Itália" quando disser que deixou de ver a Torre de Pisa pra acampar numa cachoeira. "Cachoeira tem em todo lugar", eles dizem.


Então, se esse é o turista, a pessoa que devora uma experiência transcultural e transforma ela num relatório para apresentar aos outros, o que é o viajante e como ele entende a viagem lenta como uma vivência superior e genuína de vida? É mais fácil apresentar esse viajante como uma pessoa experiente, que já viajou muito, mas não é necessariamente assim. Eu não viajei muito, e vejo pessoas que já rodaram o mundo várias vezes e não chegaram nesse amadurecimento ainda.


Quando você entende que o crescimento pessoal não está nas multidões, que a voz da autenticidade está no silêncio e não no barulho dos lugares lotados e nas horas de espera pra conseguir tirar uma foto de um monumento, você começa perder a empolgação de fazer o óbvio, de ir na corrente e viver exatamente as mesmas coisas que todo mundo faz. Vai parar de se preocupar com o julgamento alheio e talvez até deixar de postar fotos. Vai querer desfrutar a sua própria aventura do seu jeito, independentemente de, no final, ela virar uma história super excitante ou não (mas isso eu garanto que será). Veja o que os cidadãos de Veneza falam sobre isso.


Só a pessoa que já chegou nesse ponto entende que separar um dia inteiro da viagem pra passar a manhã num café de bairro é uma experiência única, e que dedicar a tarde num piquenique no parque com um livro e uma toalha no chão pode ser o que você precisava para realmente imergir naquela cultura. É que só quem atingiu esse nível de maturidade sabe avaliar o valor real das experiências, que não é medido em número de likes numa foto ou de carimbos no passaporte. Você entende do que tô falando? De autenticidade. De parar pra refletir e se permitir desfrutar o que é importante para você, para a sua alma, para a pessoa única que você é, nessa jornada única que você vive.


Dessa forma eu entendi que não existem argumentos para convencer as pessoas que ainda não estão no ponto de compreender isso. Aliás, não quero convencer ninguém, mas apenas apresentar essa nova versão, essa nova oportunidade. A viagem lenta beneficia a comunidade que você visita, pois mais tempo ali significa mais recursos financeiros para eles. Você observa melhor e escolhe melhor onde quer investir o dinheiro do seu café, você polui menos com menos transporte e menos descartáveis (que são a invenção da pressa), e pode acabar se conectando com pessoas e histórias inesperadas.


Mesmo que você queria ver o mundo (eu quero) e queira valorizar o seu dinheiro da forma mais eficiente possível (eu também), pense em chegar nesse nível aos poucos. Viva o que tiver que viver e desfrute seus objetivos. Aí, vá colecionando os aprendizados e transformando eles em conhecimento sobre a vida e a magia das culturas, e a transformação que uma viagem genuína é capaz de fazer na sua mente e na sociedade.


Se joga,

Mas em vez de correr, pense em ir mais devagar. E dessa vez, se joga mais fundo.




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