• Sabrina

Slow living, Slow travel, Slow food: Por que desacelerar é importante para a sustentabilidade?

No momento em que estou escrevendo este texto estou planejando uma viagem para cruzar a fronteira entre a Itália e França pelos Alpes caminhando. Estou no norte da Itália buscando formas de explorar o país deixando apenas pegadas na terra (literalmente, nesse caso). Se quiser acompanhar a aventura em tempo real, me encontre no instagram e leia este post aqui.


Nos últimos anos a Itália tem estimulado a prática de slow travel por meio das trilhas e peregrinações. Eu já vou dizer o que significam esses termos, mas antes quero contar que eu nunca tinha ouvido falar do movimento sloe até chegar aqui. A Itália foi sua precursora na década de 1980, e por entender a importância do turismo sustentável para combater a crise climática, esta ideia ressurgiu nos anos 2000 como a melhor alternativa para viajar, comer, viver e contribuir com a preservação da natureza.



Roma, década de 1980. A primeira franquia de fast food se instalou no país e imediatamente gerou protestos consideráveis. Para um povo que preza a sua tradição culinária como um importante elemento da cultura, era inadmissível que uma linha de "comida atropelada" se apresentasse como proposta de alimentação. Em oposição à moda "fast" (= rápido) nasceu o movimento "slow" (lento). Slowf ood significa "comida lenta", e foi a primeira versão desse movimento que exaltava a gastronomia italiana como componente da identidade cultural do povo, trazendo em si a qualidade dos produtos locais e os rituais envolvidos na produção da comida.


A premissa é a seguinte: se a comida não for lenta, preparada com todos os seus processos tradicionais, ela não é cultural. Se você já visitou ou pretende visitar esse país, sabe que eles tem um jeito único de se alimentar. Não estou falando apenas da culinária maravilhosa e das pastas mundialmente famosas. Estou falando do ato de comer.


Os restaurantes abrem por volta das 11h e fecham ali pelas 14h. Se você se distrair, pode ficar sem almoço, pois não vai encontrar lugar para comer depois desse horário (aconteceu comigo várias vezes). E o mais interessante é: a maior parte absoluta do comércio FECHA nesse horário, e ninguém tenta sair pra reslolver problemas na hora do almoço. Até o expediente de trabalho deles é diferente em razão do valor que se dá a essa "hora sagrada".


Daí nasceu a Slow Food International, uma organização que une a preservação da tradição alimentar à valorização das culturas e das comunidades locais e à proteção ambiental com o seguinte princípio: Comida tem que ser boa para quem come, pra quem produz e para o ambiente. Isso é comida feita por mãos humanas, sem promover exploração: boa, limpa e justa. Leia sobre os princípios da Slow Food.


Com o movimento Slow consolidado, cada vez mais adeptos passaram a propagar os mesmos princípios para a sua forma de viver e, consequentemente, de viajar. Com o tempo, esse termo passou a designar uma filosofia ou postura de vida, e foi aí que surgiram o Slow living (Vida lenta) e Slow travel (Viagem lenta).


Uma das propostas mais conhecidas de slow travel aqui na Itália é o percurso de peregrinação da Via Francigena, uma estrada antiga que liga Roma até o Reino Unido. O percurso é feito de bicicleta ou a pé, e existem diversos refúgios (albergues ou pousadas) e restaurantes distribuídos pelo caminho que são cadastrados na iniciativa do Il Movimento Lento para dar suporte aos viajantes.


Mas viajar slow não significa fazer trilhas, se você não gosta dessa forma de fazer turismo. Viajar lentamente é ter um roteiro flexível e aberto para descobertas, não fazer tudo às pressas para visitar o maior número de atrações turísticas por dia. Coisas como sentar para apreciar um café, conversar com pessoas locais, sentir a razão de estar ali sem correria... Slow travel é uma forma de viajar com mais significado, menos estresse, se abrindo para conexões com as pessoas e com o lugar. Em vez de mudar de hotel a cada um ou dois dias, que tal descansar por uma semana ou mais?


Esse é um dos conselho para viajar com propósito e poder transformar sua viagem em uma experiência de currículo. Também é o pedido dos moradores de Veneza para os seus visitantes.


O que isso tem a ver com sustentabilidade?


A vida rápida demais nos tornou máquinas que consomem rápido demais, que em 10 minutos transformam uma matéria prima em lixo, como o copo descartável. Para atender a essa demanda frenética é preciso produzir coisas rápido demais, o que provoca necessariamente uma exploração atropelada dos recursos naturais e do trabalho humano.


Desde a revolução industrial a produção de bens passou a ser automatizada e deu início à busca contínua por aprimorar os processos para gastar o menor tempo possível na produção da maior quantidade possível, maximizando proporcionalmente os lucros. Nós acabamos mudando o significado de eficiência e praticidade: hoje entendemos que prático é aquilo que economiza tempo e dinheiro, mas não nos preocupamos tanto com a gestão dos demais recursos. Acontece que a natureza, os corpos biológicos e a vida não obedecem a esse ritmo, e a única consequência é: um sistema atropelado entra em desequilíbrio e fatalmente quebra. Se esse sistema for uma pessoa, ela quebra: é o burn out ou estafa. Na natureza é a mesma coisa.


A natureza tem o seu próprio tempo para produzir recursos. A velocidade desses processo naturais (e fisiológicos) constitui a homeostase: a capacidade de autorregulação do sistema. Quer dizer o seguinte: a própria natureza consegue absorver grandes danos (como incêndios) desde que eles não tenham afetado a sua capacidade de autorregulação. Mas se a destruição for intensa demais ela não consegue absorver e nem conter o dano, e aí ele se propaga. Foi o que causou a pandemia do século: leia sobre a relação entre a exploração da natureza, homeostase e a pandemia aqui.


Veículos velozes queimam mais combustível e poluem mais. Cidades frenéticas são sujas, barulhentas e poluentes, pois sujamos mais rápido do que conseguimos limpar. Pessoas excessivamente aceleradas podem sofrer de ansiedade ou de coisa pior. Da mesma forma, a comida rápida (ou fast food) não obedece ao ritmo e às exigências biológicas do corpo. Por outro lado, a comida natural leva tempo para crescer, para cozinhar, para fermentar... É sazonal e não está o ano inteiro disponível no mercado, pois a planta precisa das quatro estações para completar seu ciclo produtivo.


Mas desacelerar não é parar. E também não quer dizer que toda solução que economiza tempo é ruim. É preciso QUESTIONAR e reavaliar, deixar de consumir sem critério e de viver de forma frenética. É preciso eleger prioridades. Desacelerar é uma necessidade que precisa ser resgatada nos processos humanos e na nossa relação com a natureza, e a única urgência que permanece é: precisamos fazer isso agora. Para a nossa saúde física e mental, para a saúde da natureza e da nossa própria sociedade: isso é sustentabilidade.


Eu nunca direi que você não pode visitar a maior quantidade de lugares possível em uma viagem. Não é uma questão de números. Slow é uma postura de vida que exige sabedoria para QUESTIONAR e entender o que é realmente importante em cada experiência, seja ela na estrada, no ato de comer, de se vestir ou de viver. Não se trata de parar, mas de encontrar o ritmo em que as coisas façam sentido, e não perder de vista o propósito de existir.



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