• Sabrina

A sustentabilidade financeira quebrando o ciclo da exploração: aprenda a economizar de verdade

Estamos passando por uma crise global, e mais do que nunca entendemos a importância de economizar. Mas, historicamente, nós fazemos isso de maneira errada, e acabamos não chegando a lugar nenhum. Reduzimos os gastos e o dinheiro nunca sobra na conta. Sabe por quê? Não é culpa sua.


É que somos explorados, e ensinados a propagar a exploração. E nos fazem acreditar que para economizar é necessário explorar o outro. Mas não é, e eu vou te contar como podemos economizar por você e pelos outros.



Nas minhas viagens, sempre com o bolso apertado, aprendi a abrir mão do luxo na hospedagem, transporte e alimentação para poder viajar mais com menos. Até o dia que cheguei à cidade de Veneza, e presenciei a exploração do turismo insustentável e os pedidos [desesperados] dos seus moradores para que os turistas tivessem critérios e ajudassem a economia da cidade. Leia esse relato aqui.


Vou explicar. Mas primeiro, vamos por partes.


O que é sustentabilidade e o que é minimalismo?


Quando falamos em sustentabilidade como estilo de vida, frequentemente confundimos isso com minimalismo. Mas essas duas propostas não são a mesma coisa. Também pensamos que ser sustentável ou minimalista envolve economizar dinheiro, o que também não é necessariamente verdade.


Você já deve ter lido aqui no blog que sustentabilidade é usar recursos de forma inteligente sem exploração pra não acabar com eles, e não comprometer a vida das gerações futuras. E também já deve ter ouvido que a sustentabilidade é um tripé que equilibra três pilares: econômico, social e ambiental. Dinheiro é um recurso, assim como a água, matéria prima, e pessoas que trabalham na produção de algo (= os recursos humanos).


E minimalismo, o que é?


Minimalismo é a pontinha do iceberg da sustentabilidade. É o primeiro degrau da escada: É consumir menos, acumular menos e viver com menos (entenda melhor aqui). Mas no minimalismo não existem critérios sustentáveis de onde comprar, a quem apoiar, uso de plástico e outros descartáveis, consumo de alimentos orgânicos... VOCÊ SÓ COMPRA MENOS E ACUMULA MENOS. Todos os critérios que você quiser acrescentar, são por conta dos seus valores e princípios.


O minimalismo sem critério pode, inclusive, fomentar a exploração econômica, social e ambiental, dependendo das marcas que se escolhe apoiar. Pode poluir mais e gerar mais resíduo. É bem comum as pessoas confundirem minimalismo com destralhar a casa, e de uma hora pra outra jogar tudo fora de forma precipitada, sem tentar aumentar a vida útil dos objetos (pra que não se precise comprar mais), gerando mais resíduos do que se tivesse feito uma transição pensada.


Outro erro muito comum é confundir sustentabilidade e minimalismo com economizar a qualquer custo. Eu digo isso com propriedade pois entrei nessa onda no início.


O que sustentabilidade e minimalismo tem a ver como exploração?


Eu venho de uma família muito simples, e durante toda a minha vida aprendi que economizar centavos faria muita diferença no final do mês. Então, quando comecei a ter os meus objetivos, corria o sério risco de promover a exploração para juntar o dinheiro necessário pra alcançá-los.


Eu não tinha critérios sustentáveis no início da minha vida profissional, mesmo já sendo bióloga e ecóloga. Já ostentei a "capacidade" de comprar uma blusa de R$10 numa grande loja de rede, sem ter parado pra pensar o quanto a pessoa que produziu aquela peça recebeu pelo seu trabalho.


Agora você deve estar pensando: "Mas comprar em promoção é errado?" "Essa é a única forma da maioria dos brasileiros sobreviver!" "Você não pode dizer para uma pessoa que ganha um salário mínimo que ela não pode comprar uma peça de R$10 numa grande rede." Eu entendo muito bem o que é a realidade do brasileiro que vive e sustenta uma família com um salário mínimo ou menos. Eu cresci nessa realidade. E você está certo, não é pra eles que eu estou falando, é pra você.


Quando eu ostentei essa "proeza econômica" (como se explorar fosse algum mérito), eu tinha condições de pagar um preço justo pela peça. Mas eu buscava poupar a qualquer custo pois queria mais dinheiro na conta. E também não significa que se eu pagasse um preço justo, a pessoa que a produziu receberia um pagamento justo, pois o problema está na cadeia produtiva, que é uma cadeia de exploração. E não adianta começar a comprar peças caras de grife, o dinheiro não vai pra mão de quem as produziu. Vai pro bolso do explorador. É assim que apoiamos as marcas e legitimamos as suas condutas.


Sabe quando foi que me começou a cair essa ficha? Quando me dei conta de que, pra alimentar a mim e as minhas irmãs, a minha mãe teve que se submeter a essa exploração. Ela era costureira, e eu me lembro que ela recebia R$2 reais por peça produzida. Sabe que tipo de peça que era? Aquelas blusas finas de secretária, cheia de costura pra marcar a cintura e tal. Um trabalho medonho!


Eu cresci sob a exploração, me formei em ciências da natureza e continuei contando vantagem em cima da exploração. Onde eu quero chegar?


Quando vivemos sendo explorados, não somos capazes de perceber que replicamos práticas da exploração sobre aquele que é mais necessitado do que nós. Nunca haverá sustentabilidade em uma economia que se sustenta na exploração. Sabe por quê? A exploração implica, necessariamente, no esgotamento do recurso. Quando ele se esgotar, o que será dessa economia?


Portanto, uma economia baseada na exploração é uma economia insustentável, com prazo de validade.


Economizar entre opções e critérios


Falando de novo em viagem, uma coisa é você escolher viajar de trem, avião ou ônibus usando o preço da passagem como critério. Outro critério é pensar na pegada de carbono: desses três, o trem é o que queima menos combustível e polui menos. Mas outra coisa muito diferente é você explorar um trabalhador (pode ser um artesão que vive da produção de souvenirs) para pagar o menor preço possível pelo trabalho dele, e dali tirar a sua "vantagem". Entendeu a diferença entre economizar com opções (e critérios) e economizar pela exploração?


Sabe o que isso tem a ver com o exemplo de Veneza que me chocou tanto? É que em geral, em vez de levar um souvenir de vidro do artesão nativo (a vidraria veneziana é uma arte milenar), quase todo turista compra um negocinho de plástico com cola produzido em larga escala no Vietnã, da mão de um vendedor ambulante que não mora em Veneza, e que vai embora no final do dia levando consigo parte do dinheiro que a cidade "ganha" com o turismo.


Essa é uma questão complicada (não estou dizendo para não apoiarmos imigrantes), e uma reclamação contínua dos cidadãos venezianos e trabalhadores do turismo, que suportam todos os efeitos colaterais do turismo insustentável pra ganhar a vida. Leia estes dois textos e aprofunde mais no assunto: Veneza, O Patrimônio da Humanidade que pode desaparecer e Como fazer um turismo autêntico em Veneza.


Esse exemplo é pra mostrar que primeiro precisamos ter critérios, como: comprar um souvenir de um artesão nativo (ou que não seja de plástico). E dentro desse critério, avaliar suas opções: são centenas de artesãos e produtos, você certamente encontrará uma opção econômica que ajudará a comunidade local a viver de um turismo sustentável.


A conclusão disso tudo é: para ser sustentável, você precisa economizar sim! Mas economizar não é explorar. Pelo contrário: é preciso romper com o ciclo da exploração, assim como deixar de ser explorado. Não é economizar a qualquer custo, como fazem os bancos, a indústria irresponsável da moda e o turista insustentável. É economizar APOIANDO o pequeno produtor, o microempreendedor, o autônomo... aqueles que são mais estorquidos no ciclo da exploração.


E o que nós fazemos, aqui e agora, para mudar isso?

Fazendo o que estiver ao nosso alcance no momento, e ir evoluindo aos poucos. Algumas ideias:


1. Começar a diminuir os gastos se livrando das explorações que puder. Encerrar conta naquele banco ou cartões de crédito que te cobram taxas absurdas. Todo brasileiro tem direito a uma conta corrente com poupança gratuita, chamada de Pacote de Serviços Essenciais, garantida pelo Banco Central (leia o material de divulgação das resoluções do Banco Central aqui).


Exemplo: O meu banco antigo me cobrava R$50 por mês pra manter a minha conta corrente. Eu liguei e em 2 minutos tudo foi resolvido sem me questionarem. Isso dá R$600 por ano! Outro exemplo: a maioria dos bancos cobra pra fazer TED, enquanto alguns bancos digitais não cobram nada (isso não é publicidade, ok).


2. Sempre que puder deixar de comprar algo em um grande supermercado e puder apoiar um feirante ou um mercado de bairro, faça. Aliás, se puder pagar em dinheiro, melhor ainda, pois o comerciante paga taxas altas pela conveniência do pagamento em cartão. A gente costuma pensar: "mas pra mim o preço vai ser o mesmo, então escolho cartão". Mas pra ele não será o mesmo. Se pra você não muda nada, que tal ajudar o outro?


3. Vamos praticar o exercício mental de que tudo aquilo que desvaloriza a mão de obra em prol do lucro é exploração. Os serviços devem ser os recursos mais valorizados de uma cadeia produtiva, pois estamos falando de pessoas. Horas de trabalho são horas de vida. Se a sua condição financeira e social te permitir escolher e não perpetuar o ciclo de exploração, você não perderá nada por isso (nem dinheiro, nem condições, nem status).


4. Se você for autônomo, mesmo que esteja em dificuldade, tente não explorar A SI MESMO. É incrível, mas nós somos tão acostumados que fazemos isso com a gente mesmo! Tente dizer para as pessoas que valorizar o seu trabalho é valorizar a sua vida. Eu sei que será bem difícil, pois precisamos pagar contas, e na hora do aperto ficamos tentados a aceitar a quantia que os outros querem pagar. Mas o que eu digo é: não coloque os seus preços lá no chão por medo de ninguém aceitar pagar por eles. Não comece você a explorar a si mesmo. Força de trabalho é o recuros mais caro que temos, e o mais desvalorizado.


Eu conheço uma pessoa (quase sem estudo) que faz bolos e pães pra fora. Ela cobrava R$8 por um bolo, e dizia que quando tentava cobrar mais, as pessoas não aceitavam e cancelavam a venda. E eu, tentando ajudar, fui fazer os cálculos dos ingredientes. Cada bolo custava R$10 pra ser feito, e ela ainda pagava transporte público pra fazer entrega!


A mentalidade sustentável precisa começar a partir de nós, pra que aos pouquinhos a gente enxergue formas de se libertar da escravidão moderna que nos impede de crescer. Vai doer quando você começar a perceber todas as formas de exploração que sofre, se precisar se submeter a elas pra pagar contas. Foi o que a amiga sentiu quando eu mostrei os cálculos do bolo. Mas isso vai botar a sua cabeça pra pensar e te dar novos olhos pra enxergar novas possibilidades. E é pra isso que estamos aqui: pra alertar, informar e inspirar uns aos outros.


Só te aviso uma coisa: é simplificando a vida que nos libertamos da exploração. Pensa nisso, e passa esse rascunho de vida a limpo! Vamos juntos, aos pouquinhos, de mãos dadas.


Um abraço!

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