• Sabrina

Vinho, chocolate e café: o fim da gastronomia italiana pela crise climática. Quanto tempo temos?

Atualizado: Jun 13

Após ler a frase do título, existem dois tipos de comportamento:

"Visite antes que acabe" ou "visite bem, para que não acabe".

Que tipo de viajante é você?


No momento em que escrevo este texto estou em Torino (ou Turim, em português), que é o capoluogho da Região de Piemonte, norte da Itália e vizinha dos Alpes. Aos pés dos picos nevados está uma das culinárias mais ricas e tradicionais da história da Itália: A cozinha piemontesa é particularmente famosa pelo vinho, chocolate e café.



A história da culinária que é Patrimônio da Humanidade


Piemonte detém a tradição da produção de um dos melhores e mais famosos vinhos do mundo: o vinho piemontês. As paisagens vinícolas de Langhe-Roero e Monferrato são reconhecidas desde 2014 como Patrimônio da Humanidade pela Unesco. Trata-se de um conjundo de várias propriedades produtoras do vinho que preservam os modos de produção tradicionais, e todo esse sítio abrange uma área de pouco mais de 10 mil hectares. Os detalhes estão no site da Unesco, e se quiser uma alternativa local e sustentável para desfrutar desse patrimônio, tem o Gusta Cherascho.


Além disso, foi aqui perto, na cidade de Alba, que se originou a Nutella e todos os produtos da marca Ferrero. Em 1949 a família transformou a Pasticeria Ferrero em uma fábrica e criou um dos chocolates mais peculiares e típicos da região: o Gianduiotto (Giandujot), feito de cacau com avelã. Diz a lenda que essa mistura aconteceu no fim da Segunda Guerra Mundial, quando o cacau era um produto caro, e foi misturado com a avelã para fazer a receita render, já que era um produto local abundante. A história está aqui.


Como se não bastasse, a tradição do café na cultura italiana tem o café Lavazza, que é piemontês, como referência de excelência. A relação de Torino com o café começou em 1895 com Luigi Lavazza, que tinha uma mercearia e comprava sacos de cafés de diversas partes do mundo. Sua capacidade única de combinação de cafés de diferentes variedades e origens criou os blends únicos da marca Lavazza. E foi depois da sua visita ao Brasil que Lavazza se tornou um império e uma característica da cozinha piemontesa. Se quiser ler mais...


É por isso que, dentre as duas centenas de museus que se podem visitar aqui em Torino, alguns são dedicados exclusivamente à comida e ao vinho: Turismo Torino Food & Wine.



Tudo isso é fruto de um privilégio climático: A região de piemonte é considerada chuvosa, e o frio invernal associado a essa alta precipitação combinam-se maravilhosamente para criar as condições perfeitas para o cultivo da avelã e das uvas nativas de piemonte. A região só detém essa tradição por ter as condições naturais e climáticas favoráveis para preservar uma riqueza que não existe em outra parte do mundo.

Mas existem dois problemas graves que ameaçam esse patrimônio da humanidade em que nós (você e eu) estamos envolvidos: a crise climática e a demanda mundial do fast food.

A crise climática e o fim do vinho piemontês


Você vem para a Itália achando que vai desfrutar das maravilhas culinárias e quando chega aqui, descobre que tudo está acabando. Não era a viagem que eu tinha imaginado.


Como viajante e aprendiz de cientista, eu participei do ciclo de palestras Capiamo i cambiamenti climatici do Unito Green Office aqui em Torino, um assunto relacionado à minha pesquisa. Foi apresentado o estudo de predição climática publicado em 2013 de Hanna et al., que mostrava o deslocamento da produção de vinho em função da mudança da temperatura e dos regimes de chuva na Itália até 2050. Ou seja: Em 30 anos a Itália toda se tornará um lugar quente e árido demais para continuar produzindo vinho. Não existirá mais o vinho piemontês.


No mapa ao lado, as áreas em vermelho são as que produzem vinho hoje mas não serão capazes de sustentar a produção em 30 anos: A ITÁLIA INTEIRA e a maior parte da Europa. As manchinhas em verde vão conseguir manter a produção e as áreas em azul são as que não produzem vinho hoje, mas com um clima diferente poderão fazê-lo.


O que me chocou é que os pesquisadores apresentaram outros dados mais recentes que confirmavam a predição: com o aumento da temperatura e a diminuição da chuva, outras regiões na Alemanha e no Reino Unido é que se tornarão mais propícias para produzir o vinho. Aqui, não mais.


O mesmo vale para a produção de avelã na Itália, mas com ela há ainda outros problemas:


Slow food x Fast food e o fim da culinária tradicional como aliada da natureza


A importância de preservar a tradição dos hábitos culinários tem um aspecto cultural e outro ambiental: ao valorizar a cultura tradicional, protegemos também a biodiversidade relacionada a ela, já que geralmente os ingredientes culinários são espécies nativas e foram cultivadas e usadas por centenas ou milhares de gerações, protegidas por esses costumes. Quer outra perspectiva sobre o assunto? Leia o post de Páscoa do blog.


Quando eu cheguei aqui na Itália, fiquei hospedada na casa de um jovem casal pelo AirBnb, e o rapaz me disse que a sua família era produtora de "nocciole" na cidade de Avellino, uma comuna pequenininha na Região de Capagna, perto de Napoli. Foi aí que eu deduzi "inteligentemente" que a palavra "avelã", em português, vem de Avellino: a origem da noz. Em italiano, avelã é chamada de nocciola.


O creme de avelã criado pelo talentoso pasticero Ferrero deu origem ao Giandujot e ganhou o mundo como Nutella. Mas essa iguaria deixou de ser um marco da culinária piemontesa (slow food) quando passou a tentar atender à voraz demanda mundial e se tornar Fast Food: desde 2018 a Ferrero está investindo pesado na expansão da monocultura de avelã no território italiano, causando muitos transtornos sociais e ambientais que geram protestos frequentes entre os cidadãos. O cultivo crescente está destruinto olivais centenários e prejudicando produção de vinhos orgânicos com seus fertilizantes e agroquímicos. Veja um dos manifestos aqui.


Os ingredientes da Nutella vem de todas as partes do mundo. Mesmo forçando a ampliação do cultivo na Itália, a avelã não é mais suficiente: a maior parte está sendo produzida na Turquia. O texto Il gusto amaro delle nocciole ("O gosto amargo das avelãs") é uma denúncia aos danos causados pela nossa "fome exagerada" de Nutella. Ou seja, os elementos da culinária piemontesa estão lutando entre si pelos recursos naturais e pelo seu valor na cultura local: aqueles que ganham proporção de fast food (a Nutella) estão ameaçando os que se preservam em slow food (como o vinho).


O mesmo acontece com cacau usado para a produção da Nutella e o café da tradição Lavazza, que são Sulamericanos: Por todo o mundo esses cultivos estão ameaçados pela crise climática e ao mesmo tempo podem estar causando danos colaterais se a sua produção for insustentável.


O nosso estilo de vida predatório está destruindo o mundo: como é possível reverter?


Estamos acabando com tudo aquilo que mais gostamos de desfrutar.


Os patrimônios da humanidade são marcos que carregam em si as propriedades e virtudes da humanidade. Sem eles perdemos as testemunhas da nossa história, nossa identidade e consequentemente a nossa razão de viajar.


É preciso que, como viajantes, saibamos fazer o nosso papel, e ao mesmo tempo cobrar que todos o façam. Especialmente marcas e empresas poderosas que possuem grande responsabilidade sobre o dano causado aos nossos patrimônios.


O que temos que fazer é exercer o nosso poder de consumidores e exigir publicamente a postura responsável das empresas. As suas "ações sustentáveis" vão ao encontro das necessidades mais urgentes do planeta e dos próprios efeitos colaterais das suas produções? Avalie a Ferrero aqui e a Lavazza aqui.


Compensação ambiental não é solução, e nós não temos mais tempo. Se uma dessas empresas ameaça a natureza e os nossos patrimônios mas investe em (propagandas sobre) embalagens recicláveis para compensar o dano ambiental que causam, cabe a nós pressioná-las e mostrar que as coisas não funcionam mais assim.


Sabe qual é a única solução imediada para frear a crise climática? Plantar árvores, pois elas recuperam nossas florestas e as chuvas, e consumir menos (e boicotar empresas poluidoras) para reduzir as emissões de CO2 na atmosfera. Isso tudo pra ontem, pois não há mais tempo. Precisamos apoiar continuamente iniciativas que plantam árvores, defender a demarcação urgente de terras indígenas e lutar contra a destruição da Amazônia. Leia mais sobre isso no post sobre viagem e a relação humano-natureza.


Se como eu, você quer continuar viajando pelos próximos 30 (ou 60) anos e desfrutando das bênçãos das culturas tradicionais como o vinho italiano, eu te imploro que lutemos juntos para influenciar as pessoas ao nosso redor. Jamais pense que algo é muito simples para fazer efeito: Faça tudo o que puder, até aquelas pequenas atitudes que parecem sem importância, pois o resultado não é medido pelo tamanho das ações, mas do sentimento propagado a partir delas. Vamos influenciar para transformar a consciência do mundo.


Nota: este texto não possui parceria ou interesse em divulgar nenhuma das marcas citadas.


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